sexta-feira, 27 de março de 2015

Silenciando a mente no Labirinto

A mente pode aquietar-se de várias formas.
O labirinto pode canalizar a energia caótica e ansiosa, que é o núcleo da “mente estática” que se vivencia quando se tenta silenciar a mente. Quando o estresse aumenta, aumenta também a energia mental caótica que dificulta a concentração.
Em estudos científicos sobre meditação, duas formas têm sido identificadas para gerenciar essa mente estática. A primeira é a concentração. O objetivo dos métodos de concentração é fazer a pessoa deixar de se identificar com seus próprios pensamentos. Os pensamentos podem diminuir, mas não cessam por completo. Algumas práticas podem ajudar a lidar com esses pensamentos. Os pensamentos podem ser como um rio fluindo na mente, podendo ser uma experiência agradável. Mas eventualmente se agarra um desses pensamentos e fica-se preso a ele. Aprender a se desligar disso pode ser uma forma de entrar no espaço do silencio interior.
Às vezes, frases repetidas, palavras sagradas, como os mantras, podem ajudar na concentração. Uma frase positiva repetida pode conter e focar a energia. Quando os pensamentos voltarem à mente, pode-se repetir a frase. Uma forma de fazer algo semelhante a isso no labirinto pode ser praticado, repetindo-se a frase na primeira etapa do labirinto e silenciá-la ao se entrar no centro.
Outra forma é aquietar a mente através da atenção e conscientização. Esse método convida a prestar atenção nos pensamentos. Não na mente superficial “faladora”, mas nos pensamentos profundos que fluem no labirinto. Esses métodos podem incluir: visualização, imaginação ativa, técnicas de foco.  

Fonte bibliográfica: 
Artress, Lauren - The Sacred Path Companion - A Guide to Walking the Labyrinth to Heal and Transform. Riverhead Books, New York, 2006. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Jornada do Herói e o Labirinto


A figura mítica do herói tem importante papel no amadurecimento das pessoas nas diversas culturas e tradições em geral. Comumente o herói não é alguém que “nasce pronto”, mesmo que tenha sido predestinado a isso. O próprio herói necessita de todo um processo de amadurecimento, até atingir um estado que acaba colocando-o um pouco acima dos seres humanos, mas abaixo dos deuses. Esse processo também pode ser chamado de a “Jornada do Herói”, por sua similaridade, no sentido literal ou simbólico, com algo similar a uma longa e tortuosa viagem.
Na Mitologia Grega, é bastante famosa a jornada do herói Teseu para livrar o povo ateniense do domínio do Minotauro, tendo que adentrar o labirinto onde vive esse ser.
É conhecida a analogia dessa trajetória de Teseu com as caminhadas em labirintos que se fazem hoje em dia.
Mas, além da jornada de Teseu, há as jornadas de outros tantos heróis da Mitologia. Muitas vezes essa jornada implica na necessidade do herói atravessar algum lugar sombrio, frequentemente o assim chamado “mundo subterrâneo”, que eventualmente pode equivaler ao mundo dos mortos, ou a uma outra dimensão, um espaço algo fora do mundo dos mortais, etc. Pode-se observar isso, por exemplo, na jornada de Ulisses (ou Odisseu), na Odisseia, quando ele tem que passar pelo obscuro mundo dos mortos.
Dante Alighieri, na Divina Comédia, também descreve uma trajetória inicial parecida, através da obscuridade, até que possa atingir o Céu.
Assim como esses há outros tantos exemplos.
A “Jornada do Herói” pode ser mais uma forma de ser feito o exercício da Meditação Caminhando no Labirinto, ou ainda de compreendê-lo. É uma forma simbólica de fazer esse trajeto interiormente, sendo que as idas e vindas do caminho podem mimetizar o processo de aperfeiçoamento ou depuração pelo qual o herói passa, até que possa atingir sua meta, ou seu destino. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Labirintos franceses na Idade Média


No fim do século XII, as catedrais de Auxerre e de Sens foram as primeiras na França a terem labirinto. Infelizmente, o de Auxerre foi destruído em 1690 e o de Sens em 1768. Felizmente, certos textos e descrições permitem supor que os dois monumentos eram semelhantes e compostos de onze círculos concêntricos, cujos contornos eram sulcados no pavimento e preenchidos com chumbo. Em um diâmetro de aproximadamente 10 metros, esses dois labirintos foram destinados, no início, a serem percorridos a pé, ou ainda, mais verdadeiramente, de joelhos.
Esses dois labirintos ficavam a pouca distância de Pontigny, uma das quatro abadias mães da estrutura cisterciense juntamente com La Ferté, Morimond e Claraval. Passa-se então a supor que os labirintos talvez fizessem parte da arquitetura cisterciense, o que poderia distanciar-se da arquitetura gótica. Após a morte de São Bernardo de Claraval, em 1153, sua influência diminuiu, de modo que Pontigny poderia ter mais destaque na ordem cisterciense. Pode-se lembrar que o papa Alexandre III se refugiou em Sens, substituido em Roma por um antipapa imposto pelo Imperador Frederico Barbaroxa. Em Pontigny asilou-se Thomas Becket, arcebispo de Canterbury, por ter sido obrigado a deixar a Inglaterra de Henrique Plantageneta, com seu secretário John de Salisbury, futuro bispo de Chartres, onde viria a ser construído o terceiro labirinto. Sabemos que São Thomas Becket foi assassinado em 1170; Alexandre III se reintegrou ao Vaticano em 1171 e viria a morrer em Civita Castellana em 1181. John de Salisboury foi nomeado ao episcopado de Chartres em 1176 e morreria em 1180.
É impossível ter-se a configuração exata desse dois labirintos. Desse modo, conta-se com pelo menos três variantes de possibilidades desses desenhos. Há a variante de Villard de Honnecourt, que o arquiteto do século XIII traçou sobre seu famoso caderno. Admite-se que seu desenho se pareça com uma imagem em espelho do labirinto de Chartres. Possuímos igualmente o desenho pesquisado por Emile Amé, que difere dos precedentes sobre alguns pontos importantes, e, finalmente, temos o traçado proposto pelo padre A. R. Verbrugge, que difere apenas em proporções do de Emile Amé. Mas lembremos que desses três estudiosos somente Villard de Honnecourt visitou o monumento. 

Fonte bibliográfica: 
Ketley-Laporte, John et Odette - Chartres, le labyrinthe déchiffré. Éditons Jean-Michel Garnier, 1997.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Símbolos numéricos e o Labirinto de Chartres – parte 2

Certas medidas no Labirinto de Chartres correspondem a números simbólicos. Na Rosa (ou Rosácea) Central, há medidas equivalentes a 3, 5, 7 e 10 pés. O diâmetro dessa estrutura têm 10 pés. Cada uma das 6 pétalas tem 3 pés. Um círculo que passe pelo centro das 6 pétalas tem 7 pés. O contorno do espaço que correspondia à antiga placa de bronze com a figura de Teseu matando o Minotauro tem aproximadamente 5 pés. Cada um desses números tem seu simbolismo. O 3 é associado à espiritualidade, ao espírito, ou à Trindade. O 5 corresponde à estrutura corporal do ser humano com a cabeça e os quatro membros, como um pentagrama ou uma estrela de cinco pontas. O 7 é tradicionalmente considerado um número místico por corresponder a 3 + 4, ou seja à soma de espírito ( 3 ) e matéria ( 4 ), correspondendo assim a uma das “totalidades” (por exemplo o número dos antigos planetas, uma fase da lua, etc.). O número 10 corresponde aos Dez Mandamentos, ou ainda a algumas somas como 3 + 7, ou seja,  o Espírito somado ao ser humano, ou a duas vezes cinco, podendo corresponder ao renascimento, na medida em que dobra o número do ser humano. Assim como esse outros raciocínios também podem ser feitos com os outros números em torno de 10. Devemos ressalvar que quando o labirinto de Chartres foi feito a matemática ocidental ainda não se orientava pela base 10. O número par dessa estrutura corresponde ao número das pétalas, seis, já comparadas aos 6 dias da Criação, ou ainda à junção céu e terra como na Estrela de Davi, já que o Centro pode equivaler ao ponto cósmico de junção entre céu e terra, ou mundo espiritual e mundo material; o trajeto horizontal do Labirinto “se verticaliza” com a chegada do caminhante à Rosa Central. O Labirinto tem 11 círculos concêntricos. Para Santo Agostinho 11 era o número do penitente, já que “transgredia” os 10 mandamentos. Esse pode ser um caráter da caminhada, na medida em que pode ser vivenciada como passagem das sombras à luz. Mas também 11 seriam os círculos concêntricos de antigo conceito do Universo. A soma total de camadas de ambos os lados do centro perfaz 22, que tem outros tantos significados que serão oportunamente aqui também relacionados. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Labirinto Marítimo

Os autores John e Odette Ketley-Laporte, em seu livro “Chartres, o Labirinto decifrado”, escrevem sobre “o labirinto marítimo”. Observam a semelhança entre os desenhos sobre numerosas peças de moedas cretenses, a disposição de caminhos delimitados por pedras na região do Mar Báltico e certas imagens nas rochas a pouca distância do Oceano Atlântico na Europa. Assim, supondo que esses desenhos possam ter uma origem comum, o que poderia ter sido comum entre cretenses e suecos, a uma distância de cinco mil quilômetros de costa, entre três e quatro milênios atrás?
Sabe-se que os dois povos eram navegadores e mercadores. Situada entre essas duas culturas havia a cultura Celta.
Em torno de 1200 antes de Cristo, iniciou-se a assim chamada Idade do Ferro; embora já conhecido antes, nesse momento seu uso se propagou. Vários movimentos ocorreram então entre diversos povos: a lendária Guerra de Troia, a invasão dos dórios na Grécia, o império hitita desmoronou sob o assalto de povos que cruzaram o Bósforo, a incursão dos chamados “povos do mar” no Mediterrâneo principalmente a partir de Creta. Assim, a partir do ano mil a.C. houve desenvolvimento de comércio marítimo entre o Mediterrâneo e o Norte da Europa. Tais viagens podem ter tido reflexos em tradições, histórias e lendas dos povos, como a própria narrativa da Odisseia.
Tais labirintos podem ter simbolizado movimentos do sol e da lua, tanto em relação a certos momentos do calendário, como nos solstícios, ou ainda em relação às marés, já que se tratava de povos navegadores. Há também a suposição de simbolizar duas serpentes enroladas. As figuras de duas serpentes também estão presentes em diversas tradições e mitologias. O caduceu de Hermes tinha duas serpentes enroladas, Hércules estrangulou duas serpentes em seu berço que teriam sido ali postas por Hera para matá-lo, o que poderia ser uma alusão à resistência da Ática aos dórios. Por outro lado, na Irlanda, em cuja costa há várias imagens de labirintos, não há serpentes, o que a tradição atribui a uma intervenção de São Patrício.
Em relação a Chartres, pode-se perguntar qual a correlação com essas narrativas, já que se trata de uma cidade longe da costa. No entanto, os vikings chegaram a invadir Chartres. Neste aspecto, questiona-se a respeito da possibilidade de certo conhecimento dos vikings a respeito da bússola talvez ter orientado a construção da catedral, em virtude de sua orientação em relação aos pontos cardeais.
De qualquer forma, o labirinto de Chartres guarda diferenças em relação aos labirintos dos povos marítimos, pois a disposição de seus contornos já se dá de outra forma. 
Exemplos de labirintos de povos marítimos:


quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Labirinto e a Luz

O Labirinto pode ser visto como semelhante aos processos simbólicos de atravessar o mundo subterrâneo, ou atravessar o deserto, ou águas profundas, para depois renascer, recomeçar, renovar-se. O próprio termo "labirinto" é usado como metáfora de estar perdido, estar desnorteado. Ele é visto mais como um "descaminho" do que como um caminho.
O mundo subterrâneo traz a ideia de escuridão, de incerteza de voltar à luz. O deserto em um primeiro momento pode fazer pensar em muito calor e muita luz, mas no deserto também há noite e noite fria. As águas também podem ser de rio, ou de mar, ou de lago, cada uma com suas peculiaridades que podem surpreender a quem as atravessa. 
Nesses diversos paralelos, luz e sombra podem ter vários papéis. 
Na Catedral de Chartres o equilíbrio entre luz e sombra elabora uma penumbra que cria um clima que paira entre o material e o espiritual. Esse equilíbrio adapta-se ao Labirinto como meio de reflexão e meditação. Mas, de certa forma, a luz predomina sobre as sombras no Labirinto. Todo ano, no dia 22 de Agosto, projeta-se no centro do Labirinto uma imagem de um vitral de Maria, por meio do posicionamento da luz do sol em relação à catedral e ao vitral. Esse dia 22, no tempo da construção da catedral, correspondia ao dia 15 de Agosto quando se celebra a Assunção de Maria. 
O labirinto de Chartres também se compõe de símbolos solares e lunares, ambos com luzes características e também simbólicas.
O próprio labirinto em si é uma metáfora de um caminho para a luz. A caminhada no Labirinto faz descobrir que, em vez de significar um "perder-se", ela trata de um "encontrar-se". Assim, o Labirinto traz mais luz para o caminhante, mesmo que a luminosidade do ambiente seja a mesma antes e depois da caminhada. Embora essa luz seja simbólica, muitas vezes existe a impressão de ela até ser mesmo material, quase palpável, já que o corpo como um todo percorre esse trajeto. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Caminhar no Labirinto pode ser Meditação?

A palavra “meditação” em português e nas línguas ocidentais existe há séculos com vários sentidos como, por exemplo, reflexão profunda, ou oração mental, entre outros similares. Santos cristãos praticavam várias formas de meditação que oscilavam entre os dois sentidos referidos acima. O filósofo René Descartes escreveu obra intitulada “Meditações sobre Filosofia Primeira”. O compositor Massenet escreveu o trecho musical chamado “Meditação” que faz parte da ópera Thais. Quando as formas orientais de Meditação passaram a ser conhecidas no Ocidente, tiveram seu nome traduzido para “meditação”, porque deve ser a palavra que mais se aproximava daquela atividade, no entanto, em suas línguas originais, “meditação” tem outros nomes. Assim, nas línguas ocidentais, ao falar-se em meditação pode-se estar querendo usar o sentido dado às formas orientais de meditação, ou os sentidos ocidentais dessa palavra. Desse modo, a Meditação Caminhando no Labirinto pode ser um meio de rememorar que o Ocidente faz uso dessa referência há séculos e, assim também, pode ajudar a recuperar uma forma ocidental de interiorização que tem sido desprezada nos tempos atuais, em que se dá pouco valor à subjetividade. Essa pode ser uma forma ocidental de meditar, usando uma forte e profunda imagem arquetípica ocidental que é o Labirinto e em especial o Labirinto de Chartres e suas variações.
Há quem possa considerar que, como a Caminhada no Labirinto faz uso de música, ou eventualmente de incenso, o efeito da Caminhada se deva mais a esses fatores. Essa pode ser uma pergunta interessante para ser feita a alguém especializado em Musicoterapia. Mas, de qualquer modo, sabemos que as pessoas, de modo geral, podem ser beneficiar de coisas que provoquem sensações de bem estar que não necessariamente precisam estar devidamente catalogadas como “tratamentos oficiais”. As pessoas não precisam pensar nisso ao decidirem ouvir música que faça relaxar e pensar em coisas boas. A Meditação Caminhando no Labirinto faz uso de todos esses estímulos, que se harmonizam. Há pessoas que fazem o trajeto do labirinto dançando. Outros fazem pausas estimuladas pela música. Isso pode ser bastante positivo para quem harmonize a caminhada com a música. Tudo isso concorre para uma jornada interior que abre janelas e portas do inconsciente para benefício do indivíduo que caminha.