quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Efeitos da Caminhada no Labirinto - Parte 3

Um outro efeito da Meditação Caminhando no Labirinto pode ser "uma nova maneira de dispor do tempo".
A atividade do Labirinto é também uma "quebra na rotina". Essa quebra na rotina pode eventualmente causar uma impressão acentuada também de "quebra no tempo". Essa impressão pode provir de uma espécie de "perda de noção do tempo" durante a caminhada, como pode também ser consequente de o caminhante notar após a caminhada, olhando no relógio, que passou menos tempo ou mais tempo do que ele tinha pensado que teria passado enquanto esteve no labirinto. Tais vivências podem fazer a pessoa refletir a respeito do uso que tem feito do tempo e, desse modo, rever o uso que tem feito desse tempo em relação a seus próprios valores e em relação a metas, buscas e mesmo em relação a desperdícios de tempo.
Essas percepções colaboram também na revalorização do tempo usado para pausa, reflexão e relaxamento e ver que esse tempo é tão importante quanto o tempo da produção e do trabalho.
Assim, recupera-se a noção cíclica e restauradora do tempo, que pode ser perdida quando o tempo torna-se apenas linear.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Efeitos da Caminhada no Labirinto - Parte 2

A Meditação Caminhando no Labirinto ao trabalhar com a noção de corpo e de espaço e com o trajeto inesperado pode ativar uma memória corporal e espacial que pode fazer com que o caminhante faça relatos de sentir-se em outro tempo, com um detalhamento e uma sensação próprios de uma situação aparentemente provinda de um passado histórico. 
Esse pode ser um processo construído a partir dos estímulos externos menos usuais ao indivíduo, aliado ao despertar de fatores inconscientes que se superficializam por meio dessas ricas imagens.
Além disso, cada caminhante que tem esse tipo de experiência pode fazer correlações com suas próprias crenças de natureza religiosa ou espiritual. Esse é um entendimento livre por conta de cada pessoa.
A explicação proveniente de conhecimentos ligados a estudos do sistema nervoso não se contrapõe nem impede as explicações que cabem às crenças do caminhante.
A atividade do Labirinto respeita tanto a linguagem científica, como a religiosa, ou a espiritual na interpretação de cada pessoa, dando espaço, portanto, a aspectos próprios da individualidade específica de cada um.  

sábado, 17 de dezembro de 2011

Efeitos da Caminhada no Labirinto

Os efeitos da Meditação Caminhando no Labirinto depende de cada pessoa que faz essa atividade. Pelas características da Caminhada no Labirinto existe um ajuste dessa forma de meditação tanto à personalidade de cada um, bem como também às condições em que a pessoa se encontra nesse momento. 
Esses efeitos são observados a partir do relato de cada caminhante, e também pode ser observado indiretamente na forma como a pessoa percorre o labirinto. Não cabe aqui falar-se em certo ou errado nessa forma de caminhar ou mesmo de fazer o relato. Isso fica condicionado à pessoa estar mais calma ou mais estressada, a estar com maior ou menor capacidade de atenção e concentração, ao fato de estar ou não preocupada, estar ou não aberta à própria atividade da caminhada. Além disso, em cada uma dessas situações cada pessoa também tem uma forma diversa de reação ou de lidar com tal situação.
Somadas essas variáveis, o processo de adentrar com o corpo no espaço do labirinto e estar disponível aos diversos estímulos ao redor pode construir uma série de efeitos tanto no corpo como na mente, mediados pelo sistema nervoso.
Assim, um dos efeitos que tem sido observado várias vezes é a "tomada de decisão". Muitas pessoas hoje em dia passam por um problema de "dificuldade de tomar decisão". Ocorre que em certos casos a pessoa com esse problema não percebe que se trata disso e faz a interpretação de que se trata de alguma outra coisa de natureza mental ou mesmo física. Ou ainda a pessoa acaba se acostumando a viver em um "estado de dúvida". Várias pessoas com esse tipo de problema se beneficiaram da caminhada no labirinto. Com uma ou mais caminhadas temos observado indivíduos que passaram a tomar decisões que foram importantes para seguirem em frente em suas vidas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Catedral de Chartres, os Druidas e o Labirinto

Esta é uma fotografia do Poço Druida que fica situado na Cripta da Catedral de Chartres, e mantém-se conservado até hoje. Diversas são as especulações sobre a presença desse poço na Catedral. Os druidas habitavam o assim chamado país dos Carnutos, que chegaram a ser descritos por Júlio Cesar quando lá esteve em campanha militar. Esse poço, como um antigo lugar sagrado, é portador de uma água também considerada sagrada que corre subterraneamente. A água que corre subterrânea tem um sentido especial em diversas culturas e diz respeito a uma espécie de "vida oculta na terra", ou ainda uma espécie de "energia que corre subterraneamente". Há diversas passagens bíblicas que se passam ao lado de algum poço e sempre acompanham momentos espiritualmente importantes na história bíblica do Antigo e do Novo Testamento. Desse modo, há um paralelo entre o significado do poço e da água subterrânea para os druidas e também para as tradições de crenças bíblicas. Assim ,não é difícil imaginar certa identificação entre os cristãos que decidiram fazer a primeira igreja nesse local e a sacralidade desse poço e desse mesmo local. 
Outra tradição tida como dos druidas diz respeito a "uma virgem que daria luz a uma criança". Essa pode ter sido outra identificação entre essa tradição e a tradição cristã, a qual pode ter mesmo facilitado a chegada e assimilação da nova crença. Também na Cripta de Chartres encontra-se a "Notre Dame sous-Terre", ou seja, "Nossa Senhora Sob a Terra", ou "Nossa Senhora Subterrânea", correspondendo a uma imagem escura de Nossa Senhora acompanhando a cor da terra. É interessante que isso também corresponde à Nossa Senhora Aparecida do Brasil, que também tem a pele escura. Ambas são tradições interessantes de universalização em variadas culturas da representação do "Feminino Sagrado".
Nesse aspecto enquadram-se as catedrais góticas e os Labirintos dessas catedrais e, em especial, da Catedral de Chartres, com seus símbolos correlacionados a Maria.  Têm-se as pétalas da Rosa Central do Labirinto, a Rosa Mística, têm-se a projeção do vitral de Maria em 22 de agosto nesse mesmo lugar central, têm-se os símbolos lunares que fazem parte do Labirinto, como nas lunações que rodeiam o círculo maior.
Na Catedral de Chartres há "duas Nossa Senhoras": a Nossa Senhora do Pilar no espaço habitual da igreja e a Nossa Senhora sob a Terra. 
na Psicologia Junguiana, os diversos aspectos referentes ao que se situa "abaixo da terra" podem se referir a símbolos do inconsciente profundo, onde pode haver escuridão, mas onde também pode estar enterrado um tesouro. A Notre Dame sous-Terre pode guiar o ser humano através do "caminho labiríntico" do inconsciente e da vida, com suas obscuridades e tortuosidades e aí vemos também uma identificação não só com a tradição druida, mas também com a tradição grega de Ariadne que conduziu Teseu ao centro do Labirinto para matar o Minotauro.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Labirinto e as Doenças

É comum que alguém, ao conhecer o labirinto e ouvir falar de seu uso em diversas partes do mundo e em variadas comunidades, como hospitais, igrejas, universidades, escolas, prisões, fique curioso a respeito da relação entre o labirinto e as doenças, ou ainda a respeito do que o labirinto pode fazer a pessoas que estejam doentes. 
Em primeiro lugar é necessário dizer que não há muitas pesquisas científicas a respeito do efeito da caminhada no labirinto. Por outro lado, há muitos relatos e observações de pessoas com as mais variadas situações de doença, de modo que, têm-se noções a respeito de doenças e a caminhada no labirinto. 
Um dos efeitos mais frequentemente observados é o relaxamento, a calma, a redução da ansiedade e do stress. 
Várias vezes as pessoas só percebem que estavam estressadas após a caminhada no labirinto. A pausa para fazer a caminhada, quando a pessoa se deixa levar pela atividade, permite mudar de foco, deixando de ficar prestando atenção apenas nos problemas e passando a perceber melhor a si mesmo, em suas condições no corpo e na mente. 
Alguém pode dizer que, se é assim, então basta ficar parado, quieto, que essa percepção acontece. Pode até ser que isso às vezes aconteça, mas se for apenas dessa forma, é difícil para muitas pessoas.
A meditação caminhando no labirinto oferece condições que favorecem as pessoas a mudarem o foco de sua atenção. Todos sabem que não é fácil deixar de ficar focalizado nos problemas, ou mesmo nas tarefas que estão por vir. 
Ao dispor o corpo à geometria do Labirinto, as áreas do cérebro que são menos usadas no dia a dia, são motivadas, são despertadas. Isso permite á pessoa que está estressada e não percebe isso, passar a ver-se de outra forma. Também os passos no trajeto do Labirinto podem permitir uma melhor percepção da "velocidade estressada" em que a pessoa se encontra. Chamamos aqui de velocidade estressada aquela situação em que a pessoa está andando rapidamente, ou fazendo tudo rapidamente, e isso ocorre com grande desgaste do corpo e da mente. Eventualmente alguém que pode parecer estar "na correria", pode estar calmo interiormente, pode estar veloz mas sem que haja desgaste.
A caminhada no Labirinto pode ajudar a uma nova percepção do corpo também em relação a outros aspectos. Quando alguém está doente, pode estar tão focado na doença em si, nos seus sintomas, que esquece de outras partes de si mesmo, partes do corpo e da mente, ou mesmo da alma. A nova relação do corpo, com o espaço e com o tempo, faz com que partes esquecidas do corpo voltem a ser conscientizadas. Essas partes assim conscientizadas podem colaborar para que, através delas, novas forças, novas energias e novas possibilidades apareçam e ajudem a pessoa a descobrir novas formas de conviver e lidar com a doença. 
É certo que a doença está na pessoa como um todo, porque ela é uma pessoa só, mas também é certo que, dependendo da doença, há partes do corpo mais preservadas, ou mesmo partes da mente. O descobrir dessas partes pode inclusive estimular a criatividade do próprio doente para outras maneiras de melhorar suas condições. 
Assim, resumidamente podemos dizer que uma nova percepção do corpo e da mente a partir da caminhada no Labirinto pode colaborar na percepção do próprio stress, também pode colaborar na redução desse stress. Em outras situações de doenças pode haver um despertar de certas partes do corpo que podem permitir alguma melhora do doente.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Labirinto de Chartres e sua posição cósmica

O Labirinto de Chartres tem uma posição específica em relação à construção da Catedral de Chartres, de modo que ele delimita o espaço profano do espaço sagrado da Igreja, já que ele fica sobre a entrada da antiga Catedral. Por sua vez a própria Catedral tem uma disposição geográfica bastante peculiar e incomum para o período em que foi construída. Nessa época, o altar das igrejas, de modo geral, eram direcionados para o lado do nascer do sol, principalmente no sentido do chamado solstício do verão. Mesmo que se considere a variação desse posicionamento em relação a outras posições do sol nascente durante o ano, a orientação da obra também não acompanha a situação do aparecimento do sol em nenhuma ocasião, mesmo até o solstício do inverno.
Assim, a Catedral e o labirinto estão orientados de uma maneira "desviada" para o Norte, ou seja, apontando para o Nordeste. Os estudiosos comentam sobre várias hipóteses a esse respeito. Alguns acham que essa orientação poderia ter sido dada pelo já então existente conhecimento da bússola por navegadores vikings que teriam invadido a França e teriam trazido ou reforçado a tradição do labirinto. Outros estudiosos acham que essa orientação acompanha sim alguma forma de alinhamento magnético, mas que esse alinhamento diria respeito a uma força magnética presente sob o solo, que poderia acompanhar alguma forma de dólmen ou grande rocha que teria essa propriedade; esse alinhamento já estaria presente no tempo dos druidas nesse local. Há também a hipótese de que a Catedral de Chartres acompanharia certo alinhamento cósmico assim como outras grandes obras antigas, tal como a Pirâmide de Queops, e que tal orientação seguiria toda uma série de medidas e pontos astronômicos.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Labirinto e os Sonhos - parte 2

Conforme o autor anteriormente mencionado, em seu livro sobre os labirintos ele menciona que na Antiga Grécia, no Templo de Asclépio, deus da Medicina, localizado no Epidauro, as pessoas que procuravam por cura deviam passar por várias atividades antes de poderem sonhar com Asclépio. Uma dessas atividades era oo Teatro, onde ocorria aquilo que foi mencionado por Aristóteles como a "catarse", ou seja, uma espécie de comoção que tinha a propriedade de promover uma certa melhora ou cura do doente. Posteriormente o termo catarse foi incorporado à linguagem psicanalítica. Outra atividade ligada aos rituais do Epidauro correspondia à caminhada por um labirinto. É provável que esses diversos processos fossem capazes de influenciar os sonhos dos pacientes, pois eles tinham que passar a noite em um espaço apropriado para isso no Templo, de modo que esse sono tinha o nome de Incubatio. Nesses sonhos deveria aparecer o próprio Asclépio que diria ao doente qual a medida terapêutica a ser tomada para a sua cura. No dia seguinte, os sacerdotes curadores do Templo registravam essa recomendação, de modo que essas anotações constituiram uma espécie códice terapêutico.
Talvez a caminhada no labirinto tivesse sido uma forma importante de situar o paciente diante de seu problema em um contexto mítico mobilizador de efeitos para sua cura, mobilizando disposições psíquicas apropriadas para isso. Hoje em dia, eventualmente há pessoas que relatam ter sonhado, após a caminhada no labirinto, com alguma coisa que pudesse colaborar em alguma circunstância difícil, ou ainda como meio de ter um melhor aprofundamento ou entendimento de si mesmo.

domingo, 30 de outubro de 2011

O Labirinto e os Sonhos

Nas mais diversas tradições culturais os sonhos guardam vários significados e interpretações. Na tradição ocidental as narrativas do Antigo Testamento são exemplos da antiguidade de funções que os sonhos desempenham no entendimento que os seres humanos tiveram e têm de si e do mundo. 
Na transição entre o século XIX e o século XX, Freud reavivou e acentuou a importância dos sonhos a partir de um contexto e um entendimento apropriado à modernidade e ao ambiente científico da época. Alguns anos depois, Jung enriqueceu esse estudo psicológico dos sonhos, inserindo aspectos arquetípicos e culturais.
Tanto sob o ponto de vista de antigas narrativas, quanto dos estudos psicológicos atuais, os sonhos mantêm sua importância, incluindo transversalidades com fatores antropológicos.
Paul de Saint-Hilaire, autor da obra "L'Univers secret du labyrinthe" (Éditions Robert Laffont, 1992), inicia sua obra sobre os labirintos relatando ter ficado bastante intrigado com o fato de sonhar noites e noites que estava em estruturas labirínticas. Explicações variadas pareceram-lhe pouco satisfatórias e ele constatou que diversas outras pessoas tinham sonhos semelhantes que ele considerou como expressões da própria vida de cada um. Ao invés de atenuar sua angústia por meios "químicos", ele acabou por considerar que tais sonhos eram algo premonitórios de contatos que ele viria a ter com labirintos ao fazer estudos sobre outros assuntos. Isso instigou-lhe o interesse para fazer um estudo sobre os labirintos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Linguagem do Gótico e o Labirinto

O período Gótico corresponde a uma cultura bastante peculiar, que situou-se em um intervalo de tempo entre o século XII e o século XVI, se quiser-se considerar o assim chamado Gótico tardio. Essa situação é também intermediária entre diferentes culturas europeias, ou seja, após e concomitantemente à Arte Românica e antes do Renascimento. A origem do termo "gótico" é discutível entre os estudiosos. Há os que consideram essa palavra simplesmente como derivada do termo "godo", referente aos povos bárbaros como os ostrogodos e os visigodos. Há outros como Fulcanelli que considera "gótico" como uma variante da palavra francesa "argot", que corresponde a "gíria", ou seja, a uma espécie de "linguagem não oficial". Assim, a linguagem artística do Gótico aparece como algo que não se enquadra na linguagem artística românica e nem na renascentista. O universo do Gótico apresenta tantos aspectos próprios que sua configuração, sua estrutura não foi entendida pelos homens do Renascimento. De certa forma, pode-se mesmo dizer que houve uma "perda de memória histórica" do Gótico pela cultura europeia. Suas construções e outras formas de arte passaram a ser vistas como obras estranhas e sem estética. 
A figura do Labirinto enquadra-se nesse contexto Gótico. O Labirinto, com seu sentido de "caminho intrincado", "caminho imprevisível", ou "indecifrável", pode ser visto até mesmo como um simbolo do desentendimento das gerações posteriores ao período Gótico. Percorrer o Labirinto era também como percorrer os meandros da Cultura Gótica. O Labirinto visto como uma cifra, um ideograma, pode ser entendido como um símbolo do entendimento de vida e de mundo por parte das pessoas que viviam em torno dessa Cultura. Mesmo esta referência, ou seja, Cultura Gótica, parece um pouco desencontrada do periodo medieval correspondente, pois principalmente teria mais fortemente se expressado em uma "linguagem de pedra", ou ainda "de pedra e vidro", em suas construções, esculturas e vitrais. Todas estas obras, na verdade, constituem um outro labirinto a ser percorrido e decifrado por quem quiser tentar entender um pouco desse mundo algo esquecido do ocidente.   

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Disposição cósmica dos labirintos medievais


Estas duas figuras do livro "L'univers secret du labyrinthe" do autor Paul de Saint-Hilaire, apresentam a disposição dos labirintos medievais, de modo que esse autor considera haver uma imagem especular similar à posição das estrelas que formam a constelação antigamente chamada de "Teseu" e que depois passou a ser conhecida como constelação de Hércules, conforme pode ser verificado.
Teseu era o herói que na mitologia grega venceu o Minotauro no Labirinto de Creta.
O autor considera que isso talvez possa ser mais do que uma coincidência. De qualquer forma, trata-se de um dado formidável, considerando-se a grande distância entre essas localidades portadoras de imagens de labirinto.
Esse é um entre vários mistérios intrigantes relacionados com os labirintos medievais.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Labirinto e a Arte Gótica - Parte 3

Os labirintos das catedrais góticas têm em comum com esse padrão artístico algumas características matemáticas que seguem o conhecimento matemático pitagórico legado nos estudos do Quadrivium: Aritmética, Geometria, Música, Astronomia. Juntamente com o Quadrivium (Gramática, Retórica, Dialética) formavam as assim chamadas Artes Liberais. Conforme o simbolismo de então, podemos observar que o número 3, símbolo do espírito, ou da espiritualidade ou do mundo espiritual, corresponde a três disciplinas teóricas, abstratas. Já o Quadrivium, com seu número 4, equivale ao símbolo da materialidade, com as disciplinas que servem ao estudo do mundo concreto. 
Esse simbolismo e outros encontram-se presentes também nos labirintos das catedrais góticas.
Parte desse conhecimento é anterior à Idade Média. Mas, na Idade Média, e particularmente na Arte Gótica, a aplicação desses conhecimentos chegaram a uma elaboração inusitada produtora das notáveis construções e de outras obras góticas. Todas essas obras e assim também os labirintos encerram um tipo de conhecimento e de sabedoria sobre o ser humano, sobre a natureza e sobre o cosmo que, de certa forma perdeu-se depois.
Para entender-se melhor essa afirmação é necessário que se saiba a respeito dos novos estudos que cada vez mais têm jogado luz sobre a Idade Média e têm desmentido a noção fantasiosa de que a Idade Média era uma Idade das Trevas em que existia apenas ignorância. 
Essa noção sobre a Idade Média foi construida em parte pelos renascentistas, mas mais ainda pelos iluministas e pós-iluministas. Assim, ficou-se com, por exemplo, o uso da palavra "medieval" como um adjetivo pejorativo e ofensivo que possa ser usado para apontar algum aspecto negativo de alguém ou de alguma coisa.
Cada vez mais, sabe-se que a Idade Média teve diversos fatores interessantes no que diz respeito ao conhecimento.
Entre as histórias inventadas encontra-se a de que os estudiosos da Idade Média pensavam que a Terra era plana. Assim, também atira-se para a Idade Média males que foram predominantes na assim chamada Idade Moderna. Na Idade Moderna a escravidão foi difundida e assumida no mundo ocidental. na Idade Moderna a Inquisição foi pior do que na Idade Média. Logo após o início da Revolução Industrial a vida social e cultural dos trabalhadores era pior do que durante a Idade Média, principalmente se considerarmos a Baixa Idade Média. 
É difícil acreditarmos nessas afirmações porque já estão entranhadas em nossas mentes apenas ideias negativas sobre a Idade Media.
Assim, quando entrou o período chamado depois de Renascimento, os homens de conhecimento perderam a percepção que antes era propiciada pela Arte Gótica. Passaram a ridicularizar as desproporções e a falta de perspectiva nas pinturas medievais, sem saber da dimensão simbólica dessas representações. Assim também em relação à arquitetura e escultura, e também a literatura, pois têm sido descobertos interessantes textos medievais tanto literários como científicos.
O labirinto está inserido nesse conhecimento de certo modo parcialmente "perdido", em virtude do olhar preconcebido com que por vários séculos tem-se olhado para a Arte Gótica.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O Labirinto e a Arte Gótica - Parte 2

O estudioso francês conhecido pelo pseudônimo de Fulcanelli e tido como alquimista, comentou que o Periodo Gótico teria sido um período rico em conhecimentos e habilidades técnicas que permitiram a elaboração e construção das catedrais e seus detalhes, como os vidros componentes dos vitrais e suas cores peculiares.
Mesmo que não queiramos acreditar nas elocubrações alquímicas citadas por Fulcanelli a respeito das construções góticas, há um aspecto que ele observa e que pode ser também constatado por nós. Ele se refere ao aspecto das estátuas góticas, principalmente "a face". Ele repara e assinala o sorriso presente em tais esculturas. Nota que, se a Idade Média tivesse sido terrível como foi pintada depois pelos iluministas, não seria essa a imagem transmitida por essas obras. Os leves traços dessas estátuas, acompanhando esse sorriso, talvez falem de uma época em que as pessoas estariam, na verdade, mais felizes do que supomos. Esse aspecto pode ser mais um fator revelador de uma situação de certo equilíbrio entre o lado luminoso e o lado sombrio do ser humano nos povoados próximos às catedrais. 
Assim, os labirintos presentes nas catedrais, podem ser vistos também como obras inseridas nesse contexto de "humor" ou de "emocionalidade" presente nessas comunidades. Supõe-se que os labirintos fossem meios de penitência e expiação de pecados, com pessoas fazendo seu trajeto ajoelhadas. Mas, talvez essa penitência devesse ser inserida em um contexto maior de "salvação", "ressurreição", "recomeçar", "renascer", "religar", já que esses templos, e também o labirinto eram dominados pela noção de Maria como Mediadora entre os homens e Deus. Assim, imagens associadas à Rosa, por exemplo, presentes nos labirintos e em outros lugares da catedral, referem-se a Maria Mediadora e Consoladora. 
Desse modo, o aspecto penitencial insere-se em um campo claro-escuro, na penúmbra da catedral, na luz dos vitrais; em um campo resolutivo de conflitos (sem necessariamente eliminá-los por completo) no nível espiritual.   

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Labirinto e a Arte Gótica

A Arte Gótica surgiu no século XII, na Europa, em meio à presença ainda da Arte Românica, mais antiga. Embora não haja uma delimitação exata no tempo entre uma e outra forma de arte (aliás, muitas transições em períodos artísticos são assim), a Arte Gótica tem certas características que impressionam por darem a impressão de que revelam uma consciência sobre o ser humano e sobre o mundo que apresentam singularidades que se diferenciam do período anterior e também da fase conhecida como Renascimento. Não se trata aqui de chamarmos o período Gótico de "pré-renascimento" e nem de "pequeno renascimento", como alguns supõem. Diz respeito antes a um reconhecimento de que o Gótico tem certos elementos tão próprios, que passaram até mesmo a serem incompreendidos pelos renascentistas e mesmo depois pelos iluministas.
Entre essas propriedades do Gótico, encontra-se um equilíbrio entre a luz e a sombra resultante de uma nova disposição de forças que sustentam as catedrais, de modo que abriu-se espaço aos vitrais que traduzem a luz solar em novas luzes, atenuadas entre o clarão do dia e o escuro interno da igreja.
Nos estudos de Carl Gustav Jung encontramos a conceituação do "arquétipo da sombra", correspondente a âmbito sombrio de cada ser humano, onde se situam as fraquezas, frustrações, dificuldades, erros, defeitos, imperfeições. A "Cultura Gótica" (se é que podemos chamar assim) encontrou uma forma de equilibrar luz e sombra e harmonizar o ser humano entre suas potencialidades e qualidades e sua própria sombra.
Nesse contexto insere-se o Labirinto das Catedrais, e mais destacadamente o da Catedral de Chartres como um elemento que permite vivenciar-se esse processo de equilíbrio entre luz e sombra por meio de seus símbolos e sua caminhada.    

sábado, 17 de setembro de 2011

Etapas da Meditação Caminhando no Labirinto - Parte 4

A etapa da Meditação no Labirinto correspondente ao "estar no centro" pode eventualmente compor-se de outras "subetapas", na medida em que o "despertar interior inicial" possa se desdobrar em outras percepções e vivências. Assim, alguns decidem mudar de pétala para pétala na Rosácea Central, seguindo motivações momentâneas que lhes estimulam a isso. Esse e outros movimentos no centro do Labirinto podem estar associados à uma percepção mais propriamente "espacial" da Rosácea Central, de modo que sente-se a necessidade de situar o corpo em diversas disposições em relação a esse espaço.
Antes de terminar essa etapa, a "decisão e o movimento" de que dirigem o corpo para a saída da Rosácea Central reveste-se de simbolismo no "retorno de forma decidida" de uma fonte de "energias, memórias, realinhamentos" que vão levar a um "recomeço" que se inicia ao sair da Rosácea Central.
Assim, têm-se a etapa seguinte que é uma espécie de "começo a partir do fim", ou um "renascimento", ou uma "restauração". A nova caminhada em direção à saída do Labirinto vem trazendo novas possibilidades antes não visualizadas: poder decidir, poder escolher, vislumbrar novas proporções entre problemas e prováveis soluções, poder encontrar as soluções, passar a ver os problemas em uma nova dimensão. Mesmo os problemas insolúveis podem passar a ser vistos em um outro nível de realidade, de modo que seu caráter fatalista pode adquirir uma nova disposição em relação à vida, permitindo a descoberta de outras formas de conviver com tais problemas.        

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Etapas da Meditação Caminhando no Labirinto - Parte 3

Já mencionamos que uma primeira etapa da Meditação Caminhando no Labirinto corresponde ao relaxamento. A segunda etapa diz respeito a um estágio intermediário entre "corpo e mente". 
Alguém poderia argumentar que estamos propondo uma separação entre corpo e mente ao formularmos essa etapa. Na verdade o principal fator que conduz a esta  reflexão é o "foco de atenção" do caminhante e não implica necessariamente em uma separação entre corpo e mente.
Estamos falando aqui de vivência, de experiência. 
O ser humano tem a experiência de uma "vida interior", de uma "vida mental", de uma "vivência introspectiva" que nem sempre tem um equivalente "corporal". Todo ser humano que lê esta afirmação sabe bem do que se trata aqui. Por outro lado, a experiência "sentida na pele", "nos ossos", "visceral", tem também uma determinada peculiaridade que permite ao ser humano diferenciá-la da experiência introspectiva propriamente dita.
Evidentemente há correlações entre essas instâncias e esse é um assunto milenarmente explorado pela Filosofia. 
Tratamos aqui da vivência do dia a dia e de formas comuns do ser humano observar a si mesmo, embora nem sempre tenha uma atenção consciente muito acentuada sobre esses aspectos.
Assim, o Labirinto pode ser uma ferramenta para trazer determinados elementos para o "foco de atenção".
Desse modo, de um foco no relaxamento, pode-se passar ao foco no que chamamos de "estágio intermediário corpo-mente". 
Uma terceira etapa diria respeito a um foco centrado mais ainda no interior, frequentemente carregado pela "memória". 
Ao adentrar no centro do Labirinto e parar de caminhar, é comum a percepção de algum aspecto esquecido na memória, que costuma ser benéfico, ou mesmo percepções consideradas como sendo de natureza espiritual que são fruto de um "foco interiorizado". Algumas vezes esse "foco interiorizado" é visto pelo caminhante como uma descoberta. Outras vezes a atenção se volta para o "evento interior" em si, com detalhamentos explicativos racionais ou emocionais desse "evento".
Assim, a assim chamada "iluminação" que ocorre no interior da rosácea central diz respeito a a uma luz jogada em sombras interiores que podem energizar a pessoa.

sábado, 10 de setembro de 2011

Etapas da Meditação Caminhando no Labirinto - Parte 2

Quando dividimos alguma atividade em etapas, pensamos em querer entender essa atividade passo a passo, em qual medida se passa de uma etapa a outra. Ocorre que a Meditação Caminhando no Labirinto nem sempre precisa ser formada por uma sucessão rígida de etapas. Sempre existe a possibilidade da Caminhada adquirir características próprias e inesperadas inerentes a cada pessoa. 
No entanto, o ser humano tem a peculiaridade de subdividir os processos, eventos e coisas em frações de tempo e de espaço, para tornar "inteligivelmente racional" as percepções e vivências desses processos.
Assim, é comum as pessoas que nunca andaram no Labirinto perguntarem sobre "o que acontece lá" e, muitas vezes, mesmo após a explicação, ficam interrogações no ar. Desse modo, a subdivisão em etapas visa a uma descrição "racional" de alguma coisa que nem sempre é apenas racional.
Já falamos da etapa inicial da Caminhada que corresponde mais a uma forma de relaxamento, portanto sentido, de certa forma, mais no corpo do que na mente. Considerando-se assim, podemos dizer que uma segunda etapa, corresponde a uma espécie de "transição entre o corpo e a mente". Sabemos que estamos falando aqui de uma particularidade referente a esse tipo de meditação que talvez cause certa surpresa. Não dizemos aqui que necessariamente essa etapa seja uma exclusividade da Meditação Caminhando no Labirinto. Mas, trata-se de uma "instância" não habitualmente assinalada nos discursos sobre meditação e outras atividades similares.
Temos então uma etapa bastante peculiar, pois trata-se de um "território intermediário", portanto não tão fácil de dispor, já que habitualmente dividimos corpo de mente. No entanto, o próprio Labirinto é uma estrutura simbólica com características de um processo intermediário.
Assim na "transição corpo-mente", ao mesmo tempo em que os passos são conduzidos pelo desenho do Labirinto, a mente inicia um "deixar-se levar" pelo desenho e pelos passos. Mas ainda não se trata da fase em que ocorre uma imersão interior em que ouve-se muito mais sua própria mente do que qualquer outra coisa, ao mesmo tempo em que persiste a música sendo ouvida. 
    

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Etapas da Meditação Caminhando no Labirinto

As diversas formas de meditação têm em comum a possibilidade de promover um grau variável de relaxamento, variabilidade essa muitas vezes dependente mais de certas condições individuais próprias de cada pessoa, do que necessariamente em relação às características do método de meditação.
Nos dias de hoje, em que neste momento do século XXI se fazem presentes muitas incertezas quanto ao presente e ao futuro, a capacidade de relaxamento das pessoas pode ser mais difícil, na vigência de preocupações, ao mesmo tempo em que se faz mais necessária.
O relaxamento é um primeiro passo para a meditação. Além do relaxamento, outros processos introspectivos também podem ocorrer.  
O relaxamento tem uma face exterior e uma face interior. Músculos, cérebro e mente trabalham juntos no relaxamento.
O labirinto pode ser um meio facilitador do relaxamento que permita a introspecção própria do estado meditativo, na medida em que condiciona movimentos sucessivos em uma caminhada simbólica.
Mesmo a pessoa que ache difícil meditar pode vir a beneficiar-se do relaxamento decorrente do exercício próprio de atravessar o percurso labiríntico.
O relaxamento, aliado ao deixar-se perceber dos símbolos e estímulos cognitivos ao redor, pode ser uma porta para a próxima etapa que implica em certo estado meditativo que implica em um vôo livre da memória que parece despertar sensações e marcas esquecidas, as quais adquirem um valor positivo no processo introspectivo. Em geral são "boas memórias" que foram esquecidas. São memórias que permitem à pessoa "se redescobrir" em aspectos de si mesmo que foram deixados para trás, na medida em que a vida tomou determinados rumos. 
Vemos aí dois elementos algo próprios da Meditação Caminhando no Labirinto: o relaxamento que acompanha o movimento; o despertar de memórias positivas de redescoberta.
Essa redescoberta em parte acompanha uma "descoberta" de um labirinto interior que, ao mesmo tempo em que tem características labirínticas, ou seja, pode implicar em certo temor, tem também características de "um novo caminho".
Há outras etapas a serem também comentadas oportunamente.  


sábado, 3 de setembro de 2011

Geometria Sagrada do Labirinto de Chartres

O diagrama acima corresponde a um estudo do arquiteto John James sobre correlações entre as medidas de componentes da Catedral de Chartres. No círculo inferior está assinalado o diâmetro do labirinto. Podemos observar que a medida desse diâmetro equivale ao lado de um triângulo equilátero demarcado acima.
Esse triângulo está inserido em um círculo. Por sua vez, o diâmetro deste círculo corresponde à metade da diagonal do cruzamento do transepto, ou seja, a diagonal de um quadrilátero localizado no centro da imagem em cruz formada pelo espaço correspondente à nave central, na vertical, e as extensões laterais para norte e sul correspondendo à dimensçao horizontal dessa imagem em cruz.
Alguns autores questionam a exatidão dessas medidas de John James. Mas, no contexto medieval, importam mais as proporções do que medidas exatas.
O simbolismo do círculo e do triângulo sinalizam então o Todo e a Trindade. Portanto remetem à dimensão espiritual da construção.
Pode-se perguntar se a medida da diagonal do transepto teria sido feita primeiro, ou se a medida do labirinto. De qualquer forma, denota correlação entre o labirinto e as estruturas da catedral.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Meditar com o Corpo no Labirinto - Parte 3

Uma das impressões espaciais relativas à situação do corpo em relação ao labirinto é a de que inicialmente parecer que logo vai se chegar ao centro, e depois, quando parece estar longe, subitamente aproxima-se o centro. Esse é um tipo de ilusão que, em um primeiro momento, pode parecer estar ligado apenas ao olhar. Certamente o olhar tem participação nesse processo. No entanto, olhar e movimento estão conjugados. A percepção de posição do corpo no espaço dá-se pelo olhar, mas também tem a importante participação do sistema vestibular, que informa o sistema nervoso a partir de estímulos associados à percepção da gravidade. Assim que, nas situações em que alguém sofre de cinetose, mais facilmente será "enganado" pelo sistema vestibular em certas situações de movimento do corpo, principalmente movimentos súbitos, circulares, ou repetidos. A caminhada no labirinto é suave, de modo que é menos provável ocorrer um sintoma de cinetose. Por outro lado, olhar e movimento associados em relação à disposição do corpo entre o início e o centro do labirinto podem determinar adaptações da noção de equilíbrio do corpo. A chegada ao centro do labirinto, ao mesmo tempo em que traz um descanso ao caminhante, dispõe o corpo em uma situação apropriada à essa etapa de "meditação sem movimento". No centro do labirinto, as pessoas que são habituadas a meditar na posição de lótus podem fazer uso dessa prática. Além disso, pode-se também sentar como se quiser, ou até mesmo ficar em pé. Intuitivamente, cada um deve seguir seu pendor no momento de entrar na rosa central. Há pessoas que em um dia preferem ficar sentadas e em outro ficam em pé. A Meditação Caminhando no Labirinto permite que o corpo possa ter uma maleabilidade que acompanhe o estado de espírito do momento. Assim, corpo e mente podem se harmonizar de acordo com o clima intuitivo presente na chegada ao centro. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Meditar com o Corpo no Labirinto - Parte 2

Ao pensar-se em meditação, imediatamente faz-se uma associação com a mente.
Além de pouco se lembrar do corpo, supõe-se ate mesmo tentar atingir um "distanciamento" do corpo, na medida em que se consiga aprofundar a meditação.
No caso da caminhada no Labirinto há um processo diferente desse citado. Embora a meditação ocorra na mente, o corpo é uma ferramenta importante para adentrar e permanecer no ato de meditar. 
Na medida em que o corpo se desloca, há uma mobilização da mente seguindo esse corpo. Pode-se até mesmo fazer uma alegação neurocientífica, dizendo-se que há uma estimulação "proprioceptiva" (ou seja, uma estimulação que segue a sensibilidade profunda do corpo), de modo que há uma certa "moldagem" do indivíduo. 
O corpo, estando envolvido com a atividade de caminhada no desenho do labirinto, faz "descobertas" sobre o indivíduo. O deslocamento com surpresas sucessivas, acaba levando a uma redução na "expectativa" do caminhante em relação aos próximos passos e permite que se deixe do hábito de sempre querer "antecipar e planejar". Evidentemente planejar é importante em várias situações na vida. Mas o ser humano sente também a necessidade de deixar seu ser à deriva na captação de energias e renovações de disposição que permitam um novo olhar sobre si, sobre os outros, e sobre o universo. 
Esse corpo deixa-se conduzir pela geometria sagrada presente na estrutura do labirinto. Essa geometria, cheia de símbolos, pretende "dialogar" com esse corpo, de modo que possa efetuar a transição do símbolo sagrado e do corpo para permitir uma meditação que inclua o corpo em movimento. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Meditar com o Corpo no Labirinto

A Meditação Caminhando no Labirinto tem uma característica bastante própria que é "o movimento", "o deslocamento do corpo", o corpo como "território da meditação", ou seja, constitui uma forma de adentrar à mente através do corpo. 
Esse processo que se dá no corpo, condiciona-se ao trajeto no labirinto, ao desenho do labirinto, aos símbolos presentes no labirinto. Assim, em um primeiro momento o corpo "adentra ao espaço simbólico" que delimita um campo no qual inicia-se a atividade de interiorizar-se, de meditar. Mas essa atividade parte de um "focar no corpo". O foco de atenção no corpo conduz a determinados padrões de movimento. Tais movimentos ocorrem na busca de deslocar-se pé ante pé em um trajeto em grande parte das vezes curvo. Assim, os pés são a ferramenta da Meditação Caminhando. Devemos lembrar que essa atividade pode também ser feita por cadeirantes e também devemos recordar que na Catedral de Chartres, há séculos, o Labirinto era percorrido também de joelhos.
Voltando para os pés, determinados tipos de massagem são feitos nos pés, baseando-se em uma noção de que todas as partes do corpo têm sua representação nos pés. Para raciocinar de maneira simples a esse respeito, basta notarmos que todo o peso do corpo é carregado sobre os pés, que podem, dessa forma, espelhar certas condições que se sobrepõem aos mesmos. 
Na caminhada no Labirinto os pés são mais valorizados, mais focalizados, do que em uma caminhada comum. Forçosamente, mas de modo suavizado pela música, há que se concentrar nos pés. 
Etapas que são cruciais na caminhada são as curvas de 180 graus. Necessariamente os pés devem inverter o sentido que seguiam e, assim, também todo o corpo. A maneira de conduzir os pés e o corpo nessas dobras pode retratar a forma como administramos as mudanças na vida, ou as situações em que precisamos de uma guinada de 180 graus. Nem sempre damos a atenção devida a essas curvas. Por vezes "pulamos" essa parte ou tentamos fazer com que ela não seja uma curva.
Posteriormente continuaremos com esse tema.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Vitrais de Chartres e o Labirinto - Parte 4

Continuando a reflexão sobre os vitrais localizados entre o Labirinto de Chartres e a Rosácea Oeste da Catedral, vamos nos deter no vitral que fica do lado esquerdo em relação a quem observa as janelas do lado oeste, de dentro para fora. Esse vitral diz respeito a "Transfiguração, Paixão e Ressurreição de Jesus". Compõe-se de 14 cenas, dispostas em duas colunas de 7 cenas, ou ainda subdivididas em 2 cenas para a Transfiguração, 8 cenas para a Paixão e 4 cenas para a Ressurreição. 
Aqueles que construiram a Catedral de Chartres tinham os conhecimentos próprios da época. Nesse local havia uma antiga Escola, uma espécie de "universidade", onde, entre as assim chamadas Artes Liberais, ensinavam-se Aritmética, Geometria, Astronomia, ciências essas que correlacionavam noções numéricas com noções cósmicas, bem como com noções de espaço e tempo. 
Assim, a expressão religiosa presente no trabalho artístico da catedral era veiculada através dos conhecimentos anteriormente citados.
O número 14 pode ser lido como duas vezes 7. O número 7, sendo 4 mais 3, ou seja, matéria somada a espírito, pode ser uma expressão do ser humano nessas "duas partes", inteiro, mas ainda "não completo"  como no número 8. O número 14 pode se referir ao dia 14 de Nisan, que corresponde à Pascoa hebraica comemorada na primeira noite da primeira lua cheia da primavera do hemisfério norte. O número 14 também corresponde às 14 estações da Via Sacra, que eventualmente é acrescida com uma estação de número 15 correspondente à Ressurreição. 
Nesse vitral há uma correlação entre os três citados momentos da Vida de Jesus. Essa correlação, ao mesmo tempo em que apresenta uma certa "completude" no que diz respeito à missão do Messias, também pode apontar que alguma coisa ainda falta a ser completada. O dia 14 diz respeito a uma "passagem", a Páscoa, mas também corresponde a uma mês incompleto, corresponde a duas vezes o 7, que superado fecha-se em círculo no 8. 
Essa não completude pode estar correlacionada à noção teológica de que a Paixão de Cristo prolonga-se na História até o fim dos tempos, ou ainda que os 3 eventos relatados no vitral precisam ser vivenciados novamente por cada pessoa.    
Todo esse processo pode correlacionar-se com a caminhada simbólica no Labirinto, onde cada caminhante pode exercitar-se espiritualmente em sintonia com essas etapas.
De qualquer forma os três vitrais fazem parte do espaço que fica entre a Rosácea Oeste e o Labirinto no solo. Em certo sentido esse espaço corresponde a um setor intermediário entre o sagrado e o não sagrado. Ao mesmo tempo ele se inunda da luz provinda da Rosácea Oeste e dos 3 vitrais abaixo dela. 
A soma de todos esses elementos podem simbolizar uma possibilidade do ser humano transpor-se além dos limites de sua materialidade. 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Interreligiosidade e o Labirinto

Nesta pintura do anônimo Mestre de Campana Cassoni, do século XVI, sobre a jornada de Teseu a Creta, podemos observar a imagem de um labirinto, do lado direito, com trajeto similar ao trajeto do Labirinto de Chartres. No centro da pintura há a representação de Teseu matando o Minotauro. 
No Centro do Labirinto de Chartres, havia também, até fins do século XVIII, uma placa circular de metal com a imagem de Teseu matando o Minotauro. Em um primeiro momento, essa informação desperta certa perplexidade a respeito da presença de uma figura da Mitologia Grega em uma igreja católica. Mas, isso pode ser melhor entendido se for visto a partir da incorporação do simbolismo dessa superação do Minotauro. Esse simbolismo pode ser entendido de várias formas. Uma delas pode ser a superação do ser humano de um estado mais instintivo, selvagem, por um lado mais humano, ou mais racional, dentro de um espírito grego. 
Também podemos lembrar que essa imagem de Teseu matando o Minotauro encontra-se exatamente no local que corresponde à entrada da antiga igreja. Assim, está no limite entre o sagrado e o não-sagrado.
O próprio labirinto se dispõe em posição tal que fica com metade fora desse espaço sagrado e metade dentro. 
Assim, o Labirinto delimita um espaço que contém símbolos cósmicos, mitológicos e cristãos. Esse espaço pode ser percorrido por qualquer pessoa, independente de sua crença. Esse é um espaço intermediário entre o mundo de fora e o mundo de dentro da igreja, onde diferentes culturas, linguagens, entendimentos, podem se encontrar. É portanto um espaço de promoção de paz, onde cada um pode levar consigo sua própria vivência do Caminho de Jerusalém, ou do Caminho de Creta. 
  

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vitrais de Chartres e o Labirinto - Parte 3


Continuando os comentários sobre os vitrais que ficam entre a Rosácea Oeste e o Labirinto de Chartres, observamos a janela central, entre as três janelas que ficam abaixo da Rosácea. Essa janela corresponde á Infância de Jesus. É formada por 3 colunas de nove imagens que fazem uma narrativa sequenciada de 3 em 3 imagens de baixo para cima, formando assim um total de 27 imagens. A imagem mais acima corresponde à Virgem e o Menino Jesus que nas já citadas datas de agosto (20 a 22) projetam-se no centro do Labirinto.
No alto, ao lado dessa imagem, há 2 outras imagens, do sol e da lua, uma de cada lado. Isso perfaz um total de 29 imagens, que também é um número próximo do mês lunar, já que meses lunares que duram 29 dias, além do número 28 que também pode ser considerado, se levar-se em conta sol e lua como subdivisões de um mesmo grupo de imagens. As imagens do sol e da lua inserem os acontecimentos narrados em um contexto cósmico no tempo e no universo. A sequencia narrativa das imagens, no labirinto, correspondem à jornada de Jesus e sua família, e também à jornada do caminhante no Labirinto, fazendo uma correlação entre jornada histórica, jornada de vida e jornada espiritual.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Vitrais de Chartres e o Labirinto - Parte 2


Na imagem do alto pode-se ver a imagem que fica na parte mais baixa do vitral que fica à direita de quem olha do lado de dentro da Catedral para a Fachada Oeste. Essa imagem corresponde à árvore de Jessé representando Jessé dormindo, enquanto uma árvore sobe de seu corpo, vendo-se primeiramente seu filho Davi. Depois, na imagem maior, estão, sucessivamente, indo para cima, o rei Salomão, seu filho Roboão,  depois o filho deste Abias, depois Maria e Jesus. Jesus está cercado por sete pombos que correspondem aos sete dons do Espírito Santo. Em torno dessa imagem vertical central estão dispostos 14 profetas do Antigo Testamento, dos dois lados.
Esse vitral procura acentuar a descendência hebraica e real de Jesus. Apresentando os Profetas, insere todo o quadro no contexto das profecias do Antigo Testamento. A árvore é um símbolo forte nas religiões em geral. No Paraíso havia a árvore da Ciência do Bem e do Mal e a Árvore da Vida. O fruto da primeira teria levado à queda; da segunda árvore, conforme algumas tradições, teria vindo a madeira da Cruz. Duas árvores diferentes, como as duas torres diferentes de Chartres.
Entre os dois momentos das árvores do Paraíso e da Cruz há a Árvore de Jessé, que corresponde à descendência carnal de Jesus. 
O próprio Jesus usou a árvore em suas pregações em vários sentidos, por exemplo quando se refere à árvore que dá bons frutos.
Esse vitral trabalha com o número 7, um número sagrado em termos de contagem de tempo hebraico, com a duração da semana; multiplicado por 3 dá as 21 imagens. Somam-se a esse número 21 os 7 pombos dos dons do Espírito Santo e chega-se ao número 28 correspondente ao mês lunar hebraico.
No Labirinto há os símbolos lunares e a presença de 28 voltas de 180 graus, coadunando-se com essa simbologia do feminino e do tempo hebraico.
O Labirinto como imagem cósmica de totalidade engloba também a tradição hebraica em seu papel de Caminho para a Espiritualidade.
Os vitrais desse espaço fazem parte desse triângulo cujos lados são: a fachada oeste, o chão até o labirinto, o limite superior da Rosácea Oeste e o limite leste do Labirinto.

domingo, 10 de julho de 2011

Vitrais de Chartres e o Labirinto

A disposição do Labirinto na Catedral de Chartres tem relação com a fachada Oeste da construção conforme temos citado. Essa fachada oeste foi construida em meados do século XII e é uma parte remanescente da igreja que sofreu um incêndio em 1194. Alguns estudiosos acham que o restante da catedral atual, que foi construída após essa data, poderia ter sido elaborado a partir dessa fachada e do labirinto que fica em ângulo reto com a rosácea acima dos três vitrais que são vistos acima. 
Esses três vitrais dizem respeito, respectivamente, o da direita à "Árvore de Jessé" com a Genealogia de Jesus e com Profetas. O do centro corresponde à "Infância de Jesus", sendo que sua imagem mais alta e central projeta-se no centro do labirinto em 22 de agosto (15 de agosto antes do calendário gregoriano), dia da Assunção como já foi dito. Pode-se acrescentar que essa projeção inicia-se no dia equivalente a 20 (ou 13) que corresponde ao chamado dia da "Dormição", ou morte de Maria.
O vitral da esquerda diz respeito a "Transfiguração, Paixão e Ressurreição de Jesus".
Assim, esses vitrais que ficam em uma localização intermediária entre a Rosácea Oeste e o Labirinto, fazem parte de um conjunto que busca uma mensagem em conjunto, que diz respeito a uma narrativa referente a Jesus e Maria, no contexto cósmico da Catedral.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Símbolos Numéricos no Labirinto de Chartres

O Labirinto da Catedral de Chartres apresenta representações numéricas simbólicas do entendimento cósmico do tempo e do espaço, de dimensões materiais e espirituais. Esses números acompanham simbologia solar e lunar, que equivalem também a símbolos masculinos e femininos. Respectivamente também apresentam correspondência espiritual com a dimensão feminina Mediadora de Maria e com o aspecto masculino em Cristo Salvador. Tradicionalmente Cristo é simbolizado pelo Sol nascente, que estava presente no momento da Ressurreição. Também o Natal é uma celebração que foi determinada no dia equivalente ao sol invictus, ou seja o sol invencível entre os romanos, por corresponder ao início do aumento da duração do dia em relação à noite, depois de passarem os primeiros dias do inverno, com as noites mais longas. Mais uma associação corresponde ao próprio dia de Domingo (dia do Senhor - Dominus), antes chamado de dia do Sol (ainda mantém essa designação em várias línguas).
O símbolo lunar feminino está presente em várias tradições, podendo estar ligado aos ciclos fisiológicos femininos. Na tradição greco-romana a lua está associada à deusa Artemis-Diana.
O período de 24 horas, na tradição judaica se inicia ao anoitecer, de modo que "o dia foi gestado na noite". Sob certo aspecto o sol foi gestado na noite que é o período da lua. No entanto, na mitologia greco-romana lua e sol são irmãos; mas, nessa mesma tradição, a Noite é uma das mais primevas entidades mitológicas.
No entorno do Labirinto de Chartres há 114 "lunações", ou seja, 114 círculos incompletos que lembram a lua. Essas lunações são equivalentes a 4 meses lunares. O 4 em volta do círculo, que é um símbolo solar, lembra a busca feita pelos antigos de encontrar a "quadratura do círculo", que simbolicamente significava encontrar correlações geometricamente perfeitas, algo similar à busca da pedra filosofal pelos alquimistas. Também o número114 corresponde a 6 vezes 19. 19 anos, em antigas tradições, representava um "ciclo completo" de equivalência entre períodos lunares e solares concomitantemente, ou seja, de 19 em 19 anos solares, os ciclos lunares se repetem. Portanto, esse é um número que significa uma harmonia entre sol e lua. 6 vezes esses ciclos pode simbolizar um Ciclo Cósmico, já que em 6 dias foi feito o mundo, conforme o Gênesis.   

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Som do Labirinto de Chartres

As atividades do ser humano costumam ser pontilhadas por algum som. Mesmo o "silêncio percebido" também é um tipo de som, às vezes como uma "quase ausência de som". Devemos lembrar que as pessoas que não têm o sentido da audição têm uma capacidade maior de percepção de vibrações, que também é um tipo de "som", percebido pelo tato e pelo corpo. A linguagem e suas diversas formas, a verbalidade, a fala acompanham o ser humano desde seu início na pré-história, já que "ser humano, cultura e linguagem" surgiram concomitantemente.
Assim, se tudo que é humano tem um som, tem uma vibração como energia mecânica sonora, o Labirinto de Chartres também pode ter sua correlação sonora, sua vibração musical.
A Catedral de Chartres tem como uma das influências em sua construção o conhecimento numérico pitagórico e, assim, também o conhecimento musical pitagórico. Desse modo, há representações de intervalos musicais pitagóricos em sua constituição. 
O Labirinto, tendo suas correlações com a obra da Catedral, também se harmoniza com as medidas que estão a seu redor.
A caminhada no Labirinto pode ser preenchida pelo silêncio da Catedral, que é um silêncio pleno de luz dos vitrais e da disposição das colunas e das ogivas góticas nessa disposição pitagórica.
Além disso, o som do Labirinto também pode ser feito pela música que era própria do período em que foi construído.
O som das Catedrais Góticas era equivalente ao som dos Cantos Gregorianos. 
Como as Catedrais Góticas, os Cantos Gregorianos eram produtos de autores anônimos. Eles têm o nome de Gregorianos porque foram inicialmente catalogados pelo papa Gregório Magno entre os séculos VI e VII. Gregório era beneditino, tendo assim aprendido a cultivar os cantos que depois levaram seu nome.
O Canto Gregoriano tem origem incerta, sendo provável que tenha sido formado por influências hebraicas, gregas e romanas. Sua origem é remota como a origem do Labirinto.
O Canto Gregoriano é "meditativo" como o Labirinto, pois contém a noção de unidade na voz, embora sejam diversas as pessoas. Assim, o Labirinto, com tantas voltas incertas, forma também uma unidade. 
O Labirinto vivenciado como Caminho de Jerusalém por seus criadores era próprio dessa condição de unidade espiritual do Gótico.
A Meditação Caminhando no Labirinto pode resgatar um pouco desse espírito de unidade tão longínquo no tempo.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O que acontece no Labirinto

É comum ser feita a pergunta, por quem ainda não tenha andado no Labirinto, e mesmo por quem já andou, a respeito do que acontece ao se participar da atividade da Meditação Caminhando no Labirinto. Uma forma de responder a essa questão é dizer que a resposta pode ser "inteligível ou imprevisível". Ao dizermos que a resposta é "inteligível", significamos que pode-se entender as narrativas sobre a sensação de calma, de paz, de relaxamento, ao ser percorrido o trajeto do Labirinto, já que trata-se de atividade que   trabalha com essas propostas. Ao se dizer que pode ser "imprevisível", está sendo indicado que há aspectos que são bastante inerentes à individualidade de cada pessoa, de modo que existe uma variabilidade de experiências tão grande quanto o número de pessoas que existem no mundo.
Ao acompanharmos as pessoas que têm feito esse percurso no transcorrer dos últimos dez anos, sempre temos nos surpreendido com a experiência e o sentido do Labirinto para cada um. 
Há pessoas que em sua primeira caminhada já vivenciam uma série de coisas, as quais nem sempre são verbalizadas, e não é necessário que sejam. Para outros trata-se de um processo gradual de acordo com o  transcorrer de várias atividades. 
A forma de como cada indivíduo expressa essa vivência e como multiplica esse resultado em sua vida também é variável. 
De modo geral, a Meditação Caminhando no Labirinto tem um caráter de "corte na rotina", "pausa no tempo", "nova vivência do espaço" e outras formas de indicar uma percepção diferente daquilo que habitualmente se tem com o uso "racional" que se faz da mente, e também diferente do que se supõe antes de iniciar a atividade. 
É surpreendente que algo tão antigo e aparentemente simples seja capaz de desencadear tão variadas possibilidades de vivência. O mistério das origens dessa imagem, até que ponto estaria realmente ligada a alguma forma de conhecimento esquecido à qual os Templários teriam tido acesso, são questões que permanecem indagadas, em parte porque procuramos essas respostas também de forma racional e esquecemos de tentar entendê-las de maneira artística ou poética, no sentido que essas palavras têm também como formas de entendimento e sabedoria.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Geometria Sagrada da Catedral de Chartres - Parte 3

Quando citamos diversos números presentes na Catedral de Chartres não estamos apenas falando aleatoriamente. Os construtores da catedral eram bastante influenciados pela ciência de Pitágoras. Este filósofo fazia uma leitura do Universo através dos números. Podemos dizer que esta ferramenta continua sendo fundamental para a Ciência, evidentemente que aplicada com toda a metodologia atual. Sabemos o quanto a Matemática é importante em todos os campos. 
No conhecimento pitagórico legado aos estudiosos do Quadrivium, os números e suas relações são símbolos dos mais variados aspectos concretos e abstratos.
Continuando a reflexão sobre a "Rosácea-Labirinto", ou seja,  a Rosácea-Oeste de Chartres, observamos que em sua figura central há a imagem de Cristo dentro de um contorno de 4 pétalas. Em torno dessa figura há 12 lunações.
Vemos que, enquanto o Labirinto tem na sua rosa central um simbolismo referente a Maria, mediadora, a Mãe, a Terra, na figura do centro da Rosácea há a presença de Cristo, o Filho, o Céu.
Por outro lado, Cristo envolto por 4 pétalas indica sua presença na materialidade própria desse número (4 pontos cardeais, 4 elementos, etc.), correlacionando-o ao Labirinto que está no solo e, portanto, à Mãe-Terra.
A imagem central da rosácea, rodeada por 12 lunações, implica no "4 material" das pétalas do centro multiplicado pelo "3 espiritual", ou seja implica em uma espiritualização da matéria.
O 12 do contorno menos o 4 de dentro resulta no 8, já citado como um símbolo agostiniano de completude.
Aliás, veja-se que a arquitetura de influência agostiniana trabalha com a forma octogonal.
O número 6 das pétalas do centro do labirinto multiplicado por 2  (a Terra-Mãe multiplicadora de vida)  resulta no 12 presente nos vários círculos da Rosácea. 

sábado, 25 de junho de 2011

Geometria Sagrada da Catedral de Chartres - Parte 2

Ao lado podemos observar a fachada oeste da Catedral de Chartres correspondente à sua entrada principal, também conhecida como Porta Real ou Portal Real. Acima da porta propriamente dita (ou portas) há 3 vitrais. Acima desses 3 vitrais há a Rosácea Oeste. Essa é a Rosácea que corresponde ao Labirinto como uma espécie de projeção do mesmo, ou vice-versa. Assim, de certa forma, à observação frontal externa da catedral, uma primeira visão que marca presença é a imagem "mandálica" desse grande vitral circular.
Outro item que também chama a atenção é a assimetria das torres. Essa assimetria pode parecer algo estranho ou mesmo bizarro aos olhos de artistas posteriores ao período gótico. É certo que há uma distância no tempo entre a construção final de uma e de outra torre, o que poderia servir de explicação suficiente para tal coisa. 
Mas, se Chartres é um retrato arquitetônico do Universo, também podemos ler essa diferença de outra forma.
Em Física, uma das hipóteses para o início e o desdobramento sucessivo do Universo implica no conceito de "assimetria". De certo modo, alguma "assimetria" entre as partículas subatômicas estaria associada ao processo desencadeador do Big Bang. A presença do vórtice (vortex) ou espiral nos mais diversos fenômenos naturais carrega certa assimetria na qual parece haver o número áureo (número phi) de valor aproximado 1,6.
E se o ser humano é um microcosmo miniatura do macrocosmo, há também a assimetria do próprio corpo humano. Ambos os lados do ser humano certamente são assimétricos, seja em relação aos mais diversos órgãos, quanto no que diz respeito ao próprio cérebro. 
Abaixo vemos mais de perto a "Rosácea-Labirinto" Oeste. Cada círculo externo contém 8 lunações similares às lunações que contornam o labirinto. O círculo central, que corresponde à rosa central do labirinto, contém outras 12 lunações. Há um jogo entre os números 8 e 12: 12 círculos externos com 8 lunações em cada um. Entre o 8 e o 12 há o 4 que simboliza a materialidade, o mundo material. Conforme Santo Agostinho, o número 8 é uma espécie de completude do número sagrado 7, a partir da Ressurreição de Cristo que ocorreu no primeiro dia da semana, tornando-o também o último dia. Assim, o círculo perfeito corresponderia ao octógono, ou uma roda de oito partes (similar à roda do Budismo). A soma de todas as lunações da Rosácea Oeste dá 108, ou seja 6 lunações a menos do que as que há no labirinto. A diferença de 6 está presente no número de pétalas do centro do labirinto. Corresponde aos 6 dias de criação (conforme Artress), também às 6 pontas da estrela de Davi, cujos dois triângulos simbolizam o céu e a terra.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Conhecimento, Sabedoria, Labirinto, Chartres

O local da Catedral de Chartres, além de ter sido sede de várias e sucessivas igrejas, também foi lugar de uma importante escola desde o quinto século depois de Cristo. Com o passar do tempo, na medida em que foram fundadas as universidades de Montpellier e de Paris, estas cidades ganharam mais importância como centros de conhecimento na França. Esta última especialmente, como é notoriamente sabido, passou a brilhar também em diversos outros aspectos. 
Se formos remontar ao início da Escola de Chartres, veremos que ela se inicia em torno do período correspondente ao fim do Império Romano do Ocidente, ou seja, no período que medeia entre o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média. Nesse sentido, chama a atenção a existência desse centro de ensino, em um momento em que usualmente se pensa que tivesse desaparecido o Conhecimento no Ocidente. É importante frisar-se esse dado, pois ainda se tem a impressão de que a Idade Média era um tempo apenas de obscuridades, ignorância e guerras. Essa foi uma imagem deixada por renascentistas e mais ainda por iluministas e pós-iluministas, que alegavam ter a luz da razão e projetavam no passado uma parte de suas próprias sombras. 
Assim, vemos que algo contemporânea ao Vivarium, escola fundada pelo sábio romano Cassiodoro, a Escola de Chartres era uma espécie de "pré-universidade", uma das precursoras da atribuição do nome "cátedra" às áreas de estudo, a partir da atribuição desse nome ao local de assento do chefe dessas escolas, nome esse que também acabou conduzindo à palavra "catedral" para as igrejas ligadas a essas escolas. Consta que a Escola de Chartres era um local onde se ensinava as artes liberais, ou seja o Trivium e o Quadrivium. O Trivium era composto por Gramática, Retórica e Dialética e o Quadrivium correspondia a Aritmética, Música, Astronomia e Geometria. Essa divisão seguia antigas simbologias numéricas, onde tem-se o número três, símbolo do espírito, relacionado a áreas de conhecimento mais abstrato e o número quatro, símbolo da matéria, correspondente a áreas mais relacionadas a atividades de utilidade concreta no dia a dia (embora todo o simbolismo inerente a essas áreas). Além disso, a referências de ensino de Teologia, Direito e Medicina também nessa Escola, áreas essas que depois viriam a dominar o ambiente das Universidades.
Tais conhecimentos estiveram presentes quando da construção da Catedral e do Labirinto de Chartres. Conforme o entendimento do estudioso australiano John James, a respeito da planta da Catedral, ele considerou a possibilidade de três quadrados terem configurado a obra a partir do solo (portanto usando-se os números 3 e 4). Assim, há um quadrado maior no centro e outros dois quadrados menores nas extremidades. Esses três quadrados se tocam por seus ângulos. O encontro do quadrado menor com o maior, do lado ocidental, ocorre exatamente no centro do labirinto. O encontro do outro quadrado menor com o maior do lado oriental se dá exatamente no centro do altar principal. 
Também do centro do labirinto à entrada da Catedral há 31,75 metros e do solo até o centro da rosácea oeste, que fica sobre essa entrada, há a mesma distância. Assim, questiona-se se o labirinto poderia ter sido um local a partir do qual todo o projeto teria se desenvolvido (guardando-se a ressalva de que parte do pórtico oeste já existia).

terça-feira, 21 de junho de 2011

O Labirinto, A Rosácea e os Vitrais em Chartres - Parte 3

Abaixo da Rosácea Oeste, a qual de relaciona geometricamente com o Labirinto, há três vitrais: um maior ao centro e outros dois laterais um pouco menores. O vitral do lado direito é conhecido como "A árvore de Jessé", ou seja, correspondente aos descendentes de Jessé, o pai do rei Davi. O do lado esquerdo corresponde a "Transfiguração, Paixão e Ressurreição de Jesus". O central corresponde a "Infância de Jesus". No alto deste vitral central, há uma figura da Virgem com a Criança ao colo. No dia 22 de agosto essa imagem é projetada pela luz do sol no centro do Labirinto. Deve-se considerar que a data de 22 de agosto atual corresponde a 15 de agosto, quando da construção da Catedral, pois a Reforma do Calendário Gregoriano entraria apenas séculos depois. O dia 15 de Agosto é dedicado à Assunção de Maria. Assim, há uma harmonização entre a iluminação dessa parte do vitral nessa data e o simbolismo do centro do Labirinto. Esse centro, que contém as pétalas de rosa, em cujos encontros há discretas flores de lis, em sentido invertido em relação ao arco das pétalas. Esse conjunto tem forte correlação com Maria e seu papel mediador, bem como com o símbolo do feminino também nesse papel mediador, em correlação a figuras como Ariadne em sua função de entregar o fio condutor a Teseu que tinha a tarefa de matar o Minotauro no centro do Labirinto.
Todo esse concerto geométrico de luz pode ser reforçado pela menção de Louis Charpentier em seu livro "Les mystères de la cathédrale de Chartres", quando se refere a uma sinalização em uma determinada pedra do chão do Transepto Sul da Catedral, que é iluminada em 21 de junho (a data de hoje), solstício de verão no hemisfério norte, por um raio de luz que atravessa o vitral de Santo Apolinário, o primeiro da parede oeste desse transepto. Acentua Charpentier que isso é obra de um astrônomo, de um geometra, que queria assinalar esse momento cósmico do tempo na construção. Notamos que Apolinário é um nome correlato a Apolo, deus da luz na mitologia greco-romana. 
Assim, nota-se que os vitrais, além de serem obras por si só muito trabalhosas, ainda tinham o acréscimo de estarem em harmônica correlação cósmica com as mudanças do tempo no calendário sazonal e de marcos religiosos e simbólicos. Entre essas correlações situa-se o Labirinto. 

sábado, 18 de junho de 2011

O Labirinto, a Rosácea e os Vitrais em Chartres - Parte 2

A Rosácea tem esse nome por lembrar as pétalas de uma rosa, mas também porque a flor rosa também simbolizava, na Idade Média, uma ligação com o mundo espiritual. O padrão maior da Rosácea se repete em suas partes menores, também mimetizando a rosa. A rosa, formada por pétalas em espiral, evoca um movimento dessas partes em torno do centro, configurando formações tais como os arquétipos (de Jung) em torno do self. Assim, a rosa simboliza um todo com suas partes articuladas entre si. A rosa de cor vermelha pode indicar sacrifício, enquanto a rosa branca pode indicar pureza. Assim, a rosa cor-de-rosa compõe uma mistura entre ambas. 
A reprodução do padrão da flor rosa está presente tanto no labirinto, quanto na Rosácea oeste. No centro do Labirinto há uma rosa com seis pétalas e um espaço equivalente a meia pétala. A Rosácea oeste apresenta padrões de 12 pétalas. Além disso, a Rosácea apresenta três conjuntos circulares de 12 imagens.
Vê-se assim que, enquanto o Labirinto apresenta 11 círculos concêntricos, a Rosácea apresenta esse padrão já referido ligado ao número 12.
O número 11 pode corresponder à visão de Universo então vigente, com sete planetas e mais outros quatro círculos. Como número com dois algarismos iguais, tal como 22 ou 33, pode representar um estágio intermediário entre o mundo material e o mundo espiritual.
Na "Rosácea-Labirinto" (por ser do mesmo tamanho do labirinto e estar disposta em ângulo reto em relação ao mesmo) o número 11 passa a 12, indicando um grupo completo, um programa completo, com 12 componentes. Assim, o número intermediário 11 acrescido de 1(número da totalidade) passa desse estágio para um outro nível mais elevado. No entanto, tal qual uma partícula subatômica instável, esse 12 não fica em situação estática, mas com a rosa central, que tem a imagem de Cristo, torna-se 13. Isso vale para as três camadas de 12, pois todas giram em torno da imagem central. Aliás, essa imagem central também tem doze pétalas. 
No centro do Labirinto, a rosa central tem seis pétalas, mais metade (correspondente à entrada-saída desse local). Assim, esse 6 já indica uma espécie de presença do 12 dentro do Labirinto do 11 (tal qual a presença de yin e yang mutuamente na imagem circular dessas categorias). No entanto, esse 6 também tem sua "instabilidade", já que as pétalas não estão totalmente fechadas entre si; sua abertura aponta para um 13, se multiplicada por 2 essa figura.
Assim, sendo o Labirinto do chão a mandala telúrica, a Rosácea-Labirinto elevada pode ser a mandala celeste.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Labirinto, a Rosácea e os Vitrais em Chartres

Como já dissemos anteriormente, o Labirinto tem a mesma dimensão da Rosácea na Catedral de Chartres.
Em sendo assim, a Rosácea também é um Labirinto, um caminho de luzes e de cores. 
Entramos aí no território dos Vitrais. Os Vitrais que, nessa Catedral, em sua maioria, são os mesmos de séculos atrás. A arte de seus desenhos encerra diversas dimensões nos mesmos pedaços de vidro dispostos engenhosamente. Se vistos de longe, delineiam determinadas figuras que são vislumbradas no todo da mesma janela. Se vistos de perto, surgem imagens antes invisíveis, nuvens se tornam anjos, detalhes fornecem a visão de um outro nível de realidade. Tal qual o microscópio revela células de seres vivos que são invisíveis ao olho nu, o binóculo ou a luneta evidenciam "células espirituais" nos vidros e, assim, substituem uma escada ou um andaime impossíveis de acesso ao peregrino comum. 
Uma é a visão direta dos desenhos feitos nos vitrais, outra é a visão indireta, quando se dirige o olhar às luzes que atravessaram as janelas e se projetam no espaço interno da Catedral. Nesse espaço há uma outra Catedral além daquela de pedra: há uma Catedral de Luzes.
Catedral dentro de Catedral, então esta é uma outra Barca de Pedro. A nave central da Igreja, convés do navio gótico invertido, deve conduzir os seres humanos com segurança a seu destino espiritual.
A nave de luzes como que dota de energia a nave de Pedro e traz essa energia à matéria da pedra.
A Rosácea, entre os vitrais, tem particularidades que a tornam um "labirinto de luzes". 
Em Chartres há três Rosáceas, denominadas conforme os pontos cardeais a elas relacionados: Norte, Sul, Oeste. A que se correlaciona com o Labirinto fica a Oeste. As três têm uma disposição de quadros menores, todos de alguma relacionados a círculos. Estão dispostos em três círculos concêntricos, cada qual formado por 12 imagens. Há um círculo central. A soma total de imagens corresponde ao número primo 37, que poderia corresponder à idade real de Cristo, se levar-se em consideração o erro de cálculo do calendário por Dionísio, de modo que o rei Herodes morreu em torno de quatro anos antes de Cristo. Como Cristo provavelmente morreu no ano 30, somando-se alguns anos antes de Herodes (pelo tempo que ele teria percebido que os magos não voltavam para lhe falar da descoberta do Novo Rei), pode ser aproximadamente 37.  
Posteriormente continuaremos esta reflexão.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Símbolos no Labirinto de Chartres - Parte 3

O estudioso Rudiger Dahlke faz especial referência ao Labirinto de Chartres e às Rosáceas das catedrais góticas em seu livro sobre Mandalas, comentando sobre a importância simbólica dessas imagens "mandálicas" para a cultura ocidental. O Labirinto tem especial correlação com as Rosáceas, principalmente a assim chamada Rosácea Oeste.
Antes devemos atentar para a grandiosidade e os significados das Rosáseas. Ao chegar-se ao lado do Labirinto de Chartres, algo que chama a atenção é o seu tamanho de quase treze metros de diâmetro. Sua disposição em equilíbrio com a catedral, sua força no desenho do mármore inserido no chão de pedra. Ao se saber que as Rosáceas têm o mesmo tamanho do Labirinto e estão dispostas no alto, têm-se grande espanto ao imaginar o minucioso e, ao mesmo tempo, grandioso trabalho de execução dessas estruturas circulares dispostas nas paredes.
A Rosácea Oeste tem uma disposição simétrica em relação ao Labirinto, ou seja, a distância do chão à Rosácea é a mesma (desse mesmo chão) até o Labirinto. Assim, ambas as imagens formam como que parte dos dois lados iguais do ângulo reto de um triângulo isósceles. Tal figura faz lembrar do Teorema de Pitágoras, personagem que sempre reaparece nos estudos sobre essa catedral.
Pode-se pensar se é a Rosácea que se projeta no Labirinto ou este que se projeta naquela. No primeiro caso, pode-se pensar na luz do sol "transfigurada" pelos vitrais da Rosácea como que trazendo do céu à terra sua energia. No sentido inverso, tem-se a elevação da imagem terrena, horizontal, do labirinto à posição verticalizada de busca do alto.
Ambas as situações podem servir a reflexões sobre essas diversas simbologias e a sabedoria dos que foram capazes de elaborar tão singular construção.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Símbolos no Labirinto de Chartres - Parte 2

Os Labirintos podem ter sua entrada do lado direito ou do lado esquerdo, em relação ao posicionamento do indivíduo que vai caminhar por ele. A entrada do Labirinto de Chartres fica do lado esquerdo. Tal constatação pode levar a pensar em associações com outras obras de arte que fazem uso de alguma assimetria em relação a ambos os lados. Assim, podemos observar, por exemplo, que grande parte das esculturas egípcias antigas, que representam seres humanos caminhando, apresentam o pé esquerdo à frente.
Pode-se questionar o que isso poderia significar. Talvez possa ser aventado que, diferentemente dos dias de hoje, a maioria dos egípcios teria sido de canhotos. Ainda outra suposição poderia ser de que os egípcios tinham noção da assimetria cerebral em relação às funções dos hemisférios cerebrais: o hemisfério cerebral esquerdo com predominância para o pensamento lógico, racional (comandando o lado direito do corpo) e o hemisfério cerebral direito com predominância para noções holísticas, de correlações espaciais, intuitivas (comandando o lado esquerdo do corpo). 
Devemos lembrar que, no processo de mumificação, os egípcios jogavam fora o cérebro, enquanto preservavam outros órgãos. Sabe-se também que eles faziam observações clínicas a respeito de certas correlações entre sinais clínicos e lesões no organismo. Seja qual for a origem da assimetria das estátuas, trata-se de um fato intrigante.
Ainda outra correlação pode ser feita em torno de hipóteses sobre um época entre o início do Período Neolítico da Pré-História (aproximadamente a partir de 10 mil anos antes de Cristo) e o período histórico (aproximadamente 4 mil anos antes de Cristo), a qual teria sido uma época "matriarcal", com a predominância do feminino sobre o masculino. Nesse período, supostamente o hemisfério direito seria predominante em relação ao esquerdo de modo geral, ou seja, o lado esquerdo do corpo sobre o lado direito. Assim, haveria a predominância de pensamento holístico, espacial, sobre o pensamento analítico, lógico. Dentro desse tipo de argumentação, a passagem da escrita por figuras ou ideogramas para escrita por letras simbólicas como no alfabeto moderno, corresponderia à passagem de predominância do hemisfério direito para o hemisfério esquerdo e, assim, da passagem de um período matriarcal, para um período patriarcal (essa passagem é variável no tempo, de povo para povo).
Ainda outra correlação similar pode ser observada nas duas formas de alfabeto japonês. Existe o alfabeto canji, correspondente a figuras ideogramáticas e correlacionado ao hemisfério direito do cérebro, e o alfabeto caná, correspondente a letras com simbolismo semelhante ao alfabeto latino (ou seja não são figuras "desenhadas" como nos ideogramas).
O Labirinto de Chartres guarda uma série de correlações com o feminino, o que pode também reforçar a entrada pelo lado esquerdo.
Com todas essas reflexões, talvez possamos dizer que, ao iniciar pelo lado esquerdo, o Labirinto de Chartres ativa a visão e o corpo pelo hemisfério cerebral direito, mais correlacionado com um raciocínio intuitivo, holístico, espacial. No nosso dia a dia racional,  usamos mais o hemisfério cerebral esquerdo. Essa pode ser uma das razões de a caminhada no Labirinto surpreender o caminhante, ao despertar "partes adormecidas" da mente.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Símbolos no Labirinto de Chartres - Parte 1

Símbolos em diversas tradições foram estudados por pesquisadores como Carl Gustav Jung, Mircea Eliade, Karl Kereny, Joseph Campbell e outros. Esses estudos indicaram o valor de símbolos nos contextos psicológico, antropológico, cultural, social. Assim, ao nos referirmos a símbolos presentes no Labirinto da Catedral de Chartres, devemos considerar esses diversos aspectos em relação àqueles que produziram essa obra. Portanto, tais sinais compõem uma expressão da cultura do período histórico entre os séculos XII e XIII na parte da Europa em que o estilo gótico floresceu. Além disso, tal simbologia também expressa parte da Cultura Ocidental e se remete a conotações universais inerentes ao ser humano. 
Aqui nos atemos ao Labirinto, mas devemos frisar que outros tantos produtos da criatividade humana também têm essas propriedades.
Parte da simbologia do Labirinto já está presente no mistério de sua criação. Ele é de uma época em que grande parte de obras artísticas não tinha uma assinatura, um autor personalizado; eram produções anônimas. Esse era um período em que o Canto Gregoriano, em uníssono, monotônico, também anônimo, expressava um coletivo, um corpo de fé, uma única voz múltipla que subia entre as colunas das catedrais. Assim, desconhecemos a autoria da construção do Labirinto de Chartres. 
Outro traço misterioso em relação à elaboração desse Labirinto diz respeito à suposição de ter sido feito pelos Cavaleiros Templários. Essa ordem de cavalaria acabou assumindo um espaço mítico na Cultura Ocidental, além de ter seu nome emprestado a toda e qualquer obra de ficção. Usamos aqui o termo "mítico" no sentido em que os referidos estudiosos de símbolos o usavam como relativo a uma série de fatores com densidade antropológica componentes de mitos próprios dos mais diversos povos. Os Templários correspondiam a uma ordem criada para proteger os peregrinos que se dirigiam a Jerusalém. Sua permanência no Oriente Médio e suas andanças fizeram com que tivessem contato com outras culturas e tradições e, desse modo, adquirissem mais conhecimentos e até mesmo adotassem outros costumes.
Diversos feitos medievais no Ocidente com características misteriosas, ou de difícil explicação, ou ainda cheios de simbologia, têm sido atribuídos aos Templários. Assim também o Labirinto de Chartres também tem sido chamado de Labirinto dos Templários.   

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Labirintos na Grécia Antiga

Quando se fala em labirintos na Grécia Antiga certamente a primeira coisa que vem à mente é o Labirinto de Creta referente ao Minotauro. Mas há também outro labirinto, talvez um pouco menos mitológico, mas também interessante.
No Epidauro havia um templo dedicado a Asclépio que continha um labirinto. Asclépio era o deus da Medicina para os Gregos (entre os Romanos seu nome tornou-se Esculápio). Era filho de Apolo, deus com diversas características além do sol, com o que é mais conhecido. Apolo também estava ligado à Medicina. Ele teria tirado seu filho Asclépio do ventre de sua mãe enquanto esta já estava morta sobre a pira funerária. Assim, simbolicamente Asclépio teria nascido da morte. 
Supostamente Asclépio talvez tivesse sido um antigo médico com forte presença em sua comunidade, de modo que teria sido divinizado após sua morte. Ele também é tido muitas vezes mais como um herói do que como um deus. Entre os Gregos o herói era alguém mais próximo dos seres humanos. O herói grego era, em geral, uma figura que teria se sacrificado em prol dos humanos. Asclépio morreu fulminado por Zeus por ter ousado ressuscitar um ser humano. 
No Templo de Asclépio do Epidauro, havia algumas atividades que faziam parte de uma variedade de rituais a serem praticados pelos doentes que para lá se dirigiam. Uma dessas atividades era o teatro, onde, conforme Aristóteles, ocorria a "catarse", que correspondia à vivência emocional dos espectadores do teatro. 
Essa palavra passou daí para a Psicologia, correspondendo ao seu sentido atual equivalente a uma espécie de alívio das tensões, resolução de tensões. 
De modo semelhante ao teatro, havia também um labirinto, que deveria ser percorrido pelos doentes, talvez também com algum sentido catártico. 
Após um dia com várias dessas práticas ritualísticas, os doentes deveriam dormir no ambiente das construções do templo. Durante o sono, Asclépio indicava aos doentes qual a conduta a ser tomada para tratar sua moléstia. 
Desse modo, vê-se que o Labirinto nesse lugar tinha uma função terapêutica e ritualística concomitantemente.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Geometria Sagrada da Catedral de Chartres


Este é um estudo do engenheiro italiano Alfonso Rubino sobre a geometria sagrada presente na Catedral de Chartres. Nos círculos por ele delimitados observam-se proporções harmônicas entre o arcobotante do lado direito e uma formação em arco ogival do lado esquerdo. Também pode-se ver uma disposição escalonada de acordo com notas musicais em uma medida que podemos chamar de pitagórica. O arcobotante que aparentemente seria uma estrutura apenas para sustentação, na verdade assume função harmônica no todo da construção. O número áureo, também chamado número phi, é colocado como uma unidade de medida, a partir da qual as distâncias entre as notas musicais são dispostas, bem como em relação a outras proporções. O número áureo é uma medida de proporção (aproximadamente 1,6) que está presente nas mais variadas obras de arte antigas. 
A harmonia, entre todas essas estruturas e suas medidas correspondentes, é percebida intuitivamente por aqueles que estiverem próximos ou dentro da Catedral, mesmo que não conheçam tais dados.

sábado, 28 de maio de 2011

Arcos do Gótico

Ao falarmos em Arcos do Gótico no plural, pode-se estranhar à primeira vista e imaginar-se que o único arco referente ao Gótico seria apenas o Arco Ogival. No entanto, também há o Arcobotante. O Arcobotante corresponde a estruturas que ficam do lado de fora da Catedral Gótica, nas laterais, e que condicionam algumas propriedades interessantes dessas construções. Esses elementos são importantes para a sustentação da obra, de modo que permitem a existência de grandes janelas. Essas janelas constituem os enormes vitrais dessas catedrais. Assim, pode-se dizer que indiretamente os arcos botantes jogam luz para dentro de tais igrejas. Além disso, esses arcos também configuram eles próprios notórias estruturas arquitetônicas. Eles podem ser vistos como pontes entre o profano e o sagrado a partir do lado exterior das catedrais, pelo seu formato e sua disposição. Ao mesmo tempo conferem leveza e força ao entorno da igreja. Tal qual o arco ogival, também convidam a pessoa à verticalidade, ao elevar-se.
As correlações entre esses diversos elementos dão, concomitantemente, impressão de harmonia e complexidade. Assim também o Labirinto inserido no contexto de toda a obra. Em Chartres o Labirinto tem localização singular entre todos esses fatores, dentro da geometria sagrada. A caminhada nesse trajeto é feita com os pés, mas com os olhos, concomitantemente, pode-se acompanhar os solenes e misteriosos vitrais que se erguem nos arcos ogivais, janelas que foram abertas pelo "puxar" dos arcos botantes.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Parte 4 - Labirinto e stress

A terceira etapa da caminhada no Labirinto corresponde ao trajeto de volta, ou seja, ao caminho para sair do Labirinto. Ao preparar-se para sair do Centro, a pessoa divisa a entrada da trilha a ser percorrida e inicia seus passos com uma impressão de estar saindo ou mesmo "descendo" de um espaço que representou um outro patamar em relação ao nível do solo. Com o corpo e a mente aliviados, o caminho de restauração das energias se inicia. O caminhante mal se dá conta de que está seguindo pela mesma estrada pela qual anteriormente entrou. Há aqui um aprendizado: a ida e a volta, mesmo que sejam pelo mesmo caminho, nunca são iguais. As mesmas curvas, percorridas em um sentido têm um significado, e percorridas no outro sentido induzem a outras percepções e experiências. 
Nessa etapa, os fatores relacionados ao stress já não são tão importantes quanto antes de ocorrer a "meditação caminhando". A atividade física e mental ocorrida permitiram uma visão dos problemas da vida por uma nova perspectiva, de modo que o corpo se desloca mais solto, mais leve. A atenção dedicada ao labirinto tem uma carga de energia e emoção diferente daquela do início da caminhada. 
O Labirinto da Catedral de Chartres delimita a separação entre o espaço material e o espaço espiritual. Na caminhada de saída do Labirinto, o peregrino pode ter uma experiência que mimetize essa função de uma espécie de portal dessa figura geométrica entre dois espaços simbólicos diferentes. Em alguns momentos o corpo parece querer modificar o ritmo dos passos, ou mesmo parar, para refinar algum aspecto que preencha o acolhimento que a pessoa tem de todo o processo. Esses detalhes vão dizer respeito ao momento e realidade de cada um.
Finda a caminhada, muitas vezes a pessoa faz um giro de cento e oitenta graus e volta-se para o centro da figura, como uma forma de cumprimento, ou ainda como uma forma de fechamento desse portal simbólico.
Assim, esse peregrino poderá encarar os fatores geradores de stress de outra forma, talvez nem mesmo necessitando mais enfrentá-los como em uma batalha, mas em condições de gerenciá-los, diminuindo-lhes sua força e presença.